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FLANAGENS: Por uma filosofia do testemunho – Giorgio Agamben

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Por uma filosofia do testemunho – Giorgio Agamben




Giorgio Agamben





Este especial sobre o filósofo torinense é aqui apresentado por Agamben, que repercorre sua linha de “pensamento inatual” a partir de um escrito que ficou engavetado. Para Carchia, a filosofia, agora reduzida a ancilla scientiae, deve ser inseparável da instância viva de seu exercício.



O texto cujo breve excerto aqui publicamos havia sido originalmente concebido como uma contribuição para uma história do pensamento do século XX. Inédito por razões que ignoramos, ele se apresenta agora como uma suma testamentária do pensamento de Carchia (que morreria três anos depois, isto é, justamente, em 6 de março de dez anos atrás [2000]) e, ao mesmo tempo, como uma lúcida e originalíssima ambientação crítica da antropologia do século XX. Em cada um dos cinco densos capítulos que o compõe, o autor deixa, com efeito, florescer seu pensamento de forma contextual e, por assim dizer, como contraponto à releitura de uma das principais correntes da filosofia do século XX. Assim, no primeiro capítulo (O homem, uma testemunha), a tese da filosofia como testemunho é enunciada por meio de uma crítica da concepção que reduz a filosofia a “uma simples instância metódica”. É notório que, diante do desenvolvimento e triunfo da ciência moderna, a filosofia, ao menos a partir do neokantismo, realizou um recuo estratégico nas posições da teoria do conhecimento e suas condições de possibilidade. A fragilidade do bastião no qual a filosofia acreditara se entrincheirar agora está evidente para todos; reduzida à condição de ancilla scientiae, ela agora se encontra servindo a um ladrão que, diferentemente da teologia, de modo algum precisa de seus serviços. É contra esse persistente preconceito epistemológico que Carchia propõe sua ideia do pensamento como testemunho, inseparável da “instância viva de seu exercício” e do encontro e choque com “um evento que infinitamente o supera”. No mesmo gesto, contra toda sublimação do testemunho, Carchia lembra de que o verdadeiro testemunho não pretende se identificar com aquilo sobre o que testemunha, que “há um pudor do testemunhar, que consiste em manter a dissimetria e a diacronia com o absoluto”.

No segundo capítulo (Mito e existência), o contraponto crítico se joga entre o mito e a ambígua relação que a modernidade entretém com ele. Na perspectiva de Carchia, o mito é apenas a outra face do problema do testemunho, aliás, “a única figura ou exposição do testemunho acessível ao homem”. Justamente por isso, o mito autêntico está preso entre duas consciências: a que indica que a verdade para o homem é sempre um acontecer, que necessariamente se dá por meio de narrativas, metáforas e símbolos e, ao mesmo tempo, a “consciência de que narrativas, metáforas e símbolos não são a verdade”. Longe de acontecer como figura e verdade de um passado arquetípico, o mito é, antes, experiência do perene caráter genitivo do pensamento, lugar não de uma dialética com o passado, mas de uma epifania do presente.

Contra essa experiência testemunhal do mito está a concepção do mito da modernidade, a qual (por um lado, na forma da desmitização e da ciência do mito e, por outro, na busca de uma “nova mitologia”), na verdade, é apenas a sombra produzida pela razão iluminista. De fato, segundo Carchia, racionalidade técnico-científica e irracionalidade mítica se espelham e remetem uma a outra num círculo vicioso em que elas se legitimam e, ao mesmo tempo, se deslegitimam reciprocamente. A afirmação da consciência moderna nasce, nesse sentido, de uma tortuosa “conjugação entre iluminismo e mitologia”, na qual, como em nossas universidades, disciplinas retórico-humanistas e ciências da natureza podem continuar a fingir ignorar-se respeitosa e mutuamente apenas porque sabem que, na realidade, se tornaram os dois dóceis instrumentos do domínio de uma mesma subjetividade antropocêntrica. Para Carchia, por outro lado, mito é “reconhecimento, ao mesmo tempo, da raiz natural do humano e do caráter ultra-humano do espírito”, consciência de que o humano só pode se dar num campo de forças no qual “a natureza dá a energia ao espírito e o espírito da voz à natureza”.

Não é possível aqui percorrer mais uma vez as particularidades da argumentação dos dois capítulos seguintes, A arte como figura do ultra-humano e Moral e moralística. Todavia, basta lembrar que Carchia declina sua crítica da estética e da moral do século XX retomando os conceitos guias do livro que permanece, talvez, como sua obra-prima precoce, Da aparência ao mistério (1983, o autor tinha trinta e seis anos): a aparência, lançada contra certa leitura da arte romântica, e o mistério, cifra da “fenomenologia do aparecer” dos moralistas clássicos e barrocos, são evocados em contraponto ao “totalitarismo da razão histórica” que, de Heidegger à teoria crítica, visa a liquidar a dimensão do homem natural, com seus hábitos e estilos de vida. É significativo que Carchia conclua seu reconhecimento crítico da antropologia do século XX com as mesmas páginas que fecham O amor do pensamento, livro publicado poucos dias antes de sua morte, em cujo lacônico prefácio havia definido sua intenção suprema como uma “filosofia do amor”. Aí, Carchia parte de uma crítica rigorosa da definição da modernidade (comum tanto a Blumenberg e a Löwith como, em certa medida, a Derrida e ao pós-modernismo) como ruptura do nexo cristão de apocalipse e história. Contra essas concepções, definidas por uma mesma perda de espessura do tempo histórico, Carchia faz valer a necessária implicação mútua de história e apocalíptica. “A história”, escreve, “é história apenas porque tem um fim, porque tende a um fim”, do qual pode receber “luz”; não termina, simplesmente, mas “começa a terminar”, mantendo assim vivo o nexo entre apocalipse e história. Mais uma vez, entre a “euforia gnóstica” do fim e a melancolia desconstrucionista do diferimento infinito, Carchia inscreve seu gesto característico, que conjuga num milagroso equilíbrio o que parece impossível de manter unido: um platonismo anárquico que desemboca na contemplação da aparência e uma sóbria apocalíptica que perdura amorosamente na memória daquilo que não pode senão acabar.





Texto de Giorgio Agamben publicado no suplemento Alias, de Il Manifesto, de 06 de março de 2010 (também disponível em: https://www.quodlibet.it/recensione/814)

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