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Terra em transe: a disputa hegemônica engolfa o Brasil

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The Vineyard of the Saker
Terra em transe: a disputa hegemônica engolfa o Brasil

13 de julho de 2021

Por Fabio Reis Vianna para The Saker Blog

Mesmo que a retórica e a estratégia de segurança provisória do próprio governo Joe Biden tente dar um verniz multilateralista à ideia de que a hegemonia benevolente estaria de volta, a realidade imposta pelo aumento da pressão competitiva, que se aprofunda após a eclosão da pandemia , e adquire contornos dramáticos na chamada “guerra das vacinas”, revela um cenário desafiador para os próximos anos.

O aumento gradativo da pressão competitiva, sintoma de um fenômeno justificado na teoria do Universo em Expansão, teria suas origens após os atentados de 11 de setembro, quando a “guerra universal ao terrorismo” desvenda um mundo onde o poder de uma hegemonia onipotente se revelaria na necessidade de expansão permanente do poder por meio do uso de sua infraestrutura militar.

Surge então a figura do “inimigo terrorista”, que poderia ser qualquer pessoa ou grupo, dentro ou fora dos Estados Unidos, um inimigo universal que poderia ser destruído em qualquer lugar, mesmo que isso significasse violar direitos individuais ou a soberania de outros Estados.

O expansionismo unilateral de poder levado a cabo pelos americanos a partir do 11 de setembro teria, portanto, gerado o germe da escalada dos conflitos, levando a um aumento da desestabilização e, consequentemente, a um movimento reativo dos demais estados do sistema mundial.

Como num movimento de autoproteção, antigos poderes do sistema interestadual voltam a um jogo que parecia morto, mas na prática estava apenas adormecido: a velha geopolítica das nações, onde o interesse nacional e a retomada da soberania voltariam a jogar o cartas contra os dogmas da globalização e da ordem liberal.

O retorno da Rússia, que em 2015 interveio na guerra síria – demonstrando um poder bélico não visto há muito tempo – representou um ponto de inflexão, que aparentemente começou com a reeleição do próprio Vladimir Putin em 2012, mas também com a chegada ao poder de o atual presidente chinês Xi Jinping em 2013. A partir de então, a disputa interestadual teria se acelerado consideravelmente com a ascensão desses dois gigantes eurasianos.

A difusão da competição internacional e da instabilidade estariam, portanto, em linha com a ideia de que para os atores políticos internacionais o esforço por mudanças no sistema seria preponderante para a realização de seus próprios interesses.

O surgimento de novos atores emergentes no sistema mundial, ainda que considerado um fator desestabilizador do próprio sistema, por outro lado, impulsionaria no estado hegemônico o impulso expansionista necessário para que ele se mantivesse no topo do sistema.

A instabilidade global causada pelo embate entre as potências que estariam se beneficiando da ordem internacional instituída e aquelas que almejariam subir na escada do poder sugeriria o fim, ou pelo menos a interrupção do consenso mínimo necessário para a convivência harmoniosa dentro do que Hedlley Bull chamaria de “sociedade de estados”.

Nessa perspectiva, a hipótese de guerra surgiria como um expediente quase inevitável para resolver as tensões causadas pelos desequilíbrios de poder e instabilidade global. É da guerra, portanto, e principalmente da chamada guerra hegemônica, que surgirá o estado ou coalizão de estados que conduziria a nova ordem internacional.

No momento em que se discute a crise ou o fim da chamada ordem liberal criada no século XX e liderada pelos Estados Unidos da América, o que parece evidente é a ocorrência de um questionamento cada vez mais profundo da atual ordem internacional. por outras nações.

Nesse sentido, a instabilidade global refletida no aumento da pressão competitiva estaria explícita no contexto de um ambiente conflitivo generalizado, ou em vias de generalização.

Para melhor conceituar essa ideia, a Teoria da Guerra Hegemônica de Robert Gilpin indicaria que um ambiente conflitivo generalizado, mesmo que não configurado em uma guerra aparentemente hegemônica, já sugeriria tal situação se pensarmos que o que difere uma guerra hegemônica de outras categorias de guerra seria precisamente a concepção sistêmica existente nas relações entre os estados individuais. Sendo assim, e por se tratar de uma relação sistêmica, toda a própria estrutura seria afetada por ela.

O que vem acontecendo internamente em um país como o Brasil é um exemplo muito peculiar e em escala local desse fenômeno global que se espalhou pelo sistema interestadual.

Portanto, assim como a pandemia acelerou e aprofundou a crise sistêmica global, internamente ela teve um efeito devastador ao fundir conflitos e contradições nas sociedades de muitos países ao redor do mundo.

Num momento em que a comissão parlamentar que investiga a crise pandêmica expõe as vísceras da corrupção no governo Bolsonaro, expondo as Forças Armadas a um constrangimento público há muito não visto, a nota de repúdio aos três comandos militares em uma clara ameaça ao O Congresso Nacional confirma a tese de que a guerra interna nas instituições e elites oligárquicas é algo real e cada vez mais descontrolado.

A estranha visita do diretor da CIA a Brasília e seu encontro a portas fechadas com Bolsonaro e o chefe da espionagem brasileira, General Augusto Heleno, soou como uma mensagem intimidante para a sociedade civil brasileira de que o governo Biden endossaria um hipotético fechamento de regime no Brasil .

Como aconteceu durante o governo Jimmy Carter – quando a ditadura militar foi fortemente pressionada pelos Estados Unidos -, ainda que a pressão da opinião pública americana possa levar o governo Biden a abandonar o nefasto governo Bolsonaro, ainda é muito útil para o atual Estratégia de segurança americana de que um governo vassalo como o brasileiro garante o afastamento da presença eurasiana no “Hemisfério Ocidental”, e ainda contribui para a desestabilização de países hostis como Argentina, Bolívia, Venezuela e Cuba.

A forma errática como está sendo feita a privatização da Eletrobrás – o que levará a um aumento sem precedentes de custos – assim como a crise energética que se aproxima, sinalizam um distanciamento crescente de setores poderosos das elites empresariais de um governo que revela um rosto abertamente militarizado e autoritário, alheio à realidade.

O esgarçamento, portanto, das relações sociais no topo da pirâmide brasileira revela um cenário que encontra precedente histórico apenas naquele período que culminou na chamada Revolução de 1930, quando a disputa entre as oligarquias da época atingiu seu auge.

A exemplo do que está acontecendo neste momento em Cuba e na África do Sul, a escalada dos conflitos sociais sistêmicos parece não ter fim e, ainda que por motivos diversos, seria o resultado da caixa da pandora aberta pela pandemia.

Mesmo que à primeira vista não pareça relevante, certamente o aprofundamento das tensões em nível global – dentro do universo da grande disputa hegemônica – será decisivo para o futuro da debilitada democracia brasileira.

O clássico “Entranced Earth”, do grande cineasta Glauber Rocha, nunca foi tão útil para a realidade brasileira.

Fabio Reis Vianna, mora no Rio de Janeiro, é bacharel em direito (LL.B), mestrando em Relações Internacionais pela Universidade de Évora (Portugal), escritor e analista geopolítico. Atualmente mantém uma coluna sobre política internacional no centenário jornal brasileiro Monitor Mercantil.



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1 COMENTÁRIO
Mario Medjeral em 14 de julho de 2021 · às 12h20 EST / EDT
Bolsonaro is the result of a CIA construct of ‘lawfare’, using the judicial system as a political arm, combined with a corrupt media controlled by Brazil’s oligarchy.
A very similar operation took place in Argentina, which failed to bring Cristina Fernandez de Kirchner in jail with absolutely fake accusations.
How sustainable is the government of Bolsonaro?
Covid has shown the emperor has no clothes and no brain.
While Brazil has surpassed 500.000 deaths, Argentina is the first South American country which brought in Sputnik and is now even the first country in South America which produces Sputnik under license from Russia.
How many more deaths does Brazil require to show that Bolsonaro is a fascist stooge of the Brazil corrupt elites and Washington.?
Bolsonaro is only there to sell (privatize?) what is left of state enterprises (a Brazilian Yeltsin) and when this is finished he will be asked to go home.
There is substantial evidence that Macri and Bolsonaro assisted militarily in the Bolivia coup, this will eventually have geopolitical consequences.
Bolsonaro is betting on a loosing horse (Washington against China and Russia) and this will bring long term consequences to Brazil’s economy. (To send a Brazil war ship to the Black Sea to join the clowns of ‘Sea Breeze’ is the ultimate joke)
I have no doubt that the people of Brazil, once they wake up, will have their Bastille day and bring this crooks to justice.
Cheers from France (Happy Bastille Day!)

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