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Uma pequena ilha sem pudor: as origens e o significado de “Drang nacht Osten”

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Uma pequena ilha sem pudor: as origens e o significado de “Drang nacht Osten”

Sem a “boa” vontade do Ocidente, a Alemanha hitlerista nunca teria sido capaz de entrar no espaço operacional da Rússia. Foram os próprios europeus que os induziram a ir  em direção às fronteiras soviéticas. A pedido dos anglo-saxões.

O que aconteceu

Costumamos dizer que os problemas de confusão e vacilação europeus são organizados pelos anglo-saxões em seus próprios interesses egoístas. Obviamente, em relação aos dias de hoje e mesmo à época, a partir do século XVII, tal avaliação é absolutamente (ou em alto grau) justa. Mas se estamos tentando definir algum processo histórico objetivo e tirar conclusões dele,  adequadas para análise geopolítica  real, devemos verificar, em primeiro lugar, se a intervenção dos anglo-saxões foi sempre primária e, em segundo lugar, se tais processos ocorreram em uma era em que nem os estados anglo-saxões modernos, nem a Europa moderna, nem a Rússia  não existiam. Somente identificando as raízes históricas do fenômeno, poderemos desenvolver uma forma mais ou menos eficaz de lidar com a questão. Caso contrário, continuaremos a sonhar sobre como uma potencial aliança russo-alemã poderia proporcionar paz e prosperidade a toda a humanidade;. E que, por causa da política destrutiva dos anglo-saxões, nós, russos, tal como os alemães, em detrimento dos nossos próprios interesses, decidimos  fazer mais que o necessário para provocar  guerras um contra o outro …

Todavia, se não somos idiotas completos, o que nos impede de parar com isto e tomar as decisões corretas após inúmeras experiências negativas?

Por que Hitler decidiu que o futuro “brilhante” da Alemanha está no leste, na Rússia? Como sabemos, a campanha ao Oriente foi planejada por Hitler com o objetivo de obter e colonizar as terras “livres” (libertadas dos eslavos) pelos alemães muito antes que os anglo-saxões o notassem e a levassem em frente.

Esta ideia está estruturada no “Mein Kampf”, que foi escrito de abril a dezembro de 1924 (publicado em 1925-1926), quando Hitler estava na prisão da Baviera Landsberg após um golpe fracassado, e o NSDAP, que havia perdido seu líder,  estava em coma …Nessa época, Hitler era apenas um dos muitos políticos regionais da Baviera, e estava longe de ser o mais influente. Bem, depois do fracasso do golpe e do colapso real do NSDAP, não apenas os anglo-saxões, ou mesmo os oligarcas totalmente alemães, bem como os líderes financeiros e industriais da Baviera nenhum deles estava pronto para investir fundos significativos num projeto de guerra contra o ocidente. Além disso, havia propostas semelhantes suficientes no flanco direito da Alemanha naquela época.  Finalmente, Hitler oralmente e de uma forma não sistemática apresentou repetidamente a mesma ideia a seus companheiros de partido na cervejaria Hofbräuhaus de Munique em 1920-1923.
Assim, podemos conceber que o futuro ditador alemão teve sua própria ideia de uma guerra com a Rússia (URSS), sem a ajuda dos anglo-saxões. Estes últimos  apoiaram não apenas um projeto pronto, mas um projeto que parecia um  sucesso, depois que o partido nazista começou a crescer ativamente e a ganhar eleições após eleições.

Por que será que Hitler, que durante a Primeira Guerra Mundial brigou na Frente Ocidental com a Grã-Bretanha e a França por uma redistribuição das colônias africanas e asiáticas em favor da Alemanha, repentinamente decidiu que o futuro “brilhante” alemão estava no leste, na Rússia?
O fato é que a Grã-Bretanha e a França eram duras demais para serem destruídas pela Alemanha. Além disso, uma poderosa barreira limitrofe foi criada na Europa Oriental, que serviu não apenas como um “cordon sanitaire” contra a URSS, mas também contra uma potencial segunda frente da Alemanha. Se em 1938 os exércitos tcheco e polonês puderam resistir efetivamente aos alemães em antecipação à ajuda ocidental, então, em 1934-1935, cada um deles poderia, sozinho, transformar o Reichswehr em pó. Mas a Entente Báltica, a A. Menor e os Balcâs, criada pelo Ocidente para conter a Alemanha e a URSS, também incluía a Romênia, a Iugoslávia, a Grécia, a Turquia até os limítrofes do Báltico. Pelo menos os quatro primeiros tinham exércitos grandes e totalmente prontos para o combate. Em 1920-1924 Hitler não sabia com que rapidez seria capaz de aumentar o poder das forças armadas alemãs e com que facilidade a barreira limítrofe oriental cairia diante dele. Mas ele  entendia que, sem a boa vontade do Ocidente, a Alemanha não seria capaz de entrar no espaço operacional soviético  Simplesmente não fazia fronteira com a URSS e não podia entrar nela à força. Os europeus tiveram que abrir seus territórios para que os alemães alcançassem as fronteiras soviéticas.              

Porém, quando Hitler estava pronto para atacar, a URSS já não era mais uma vítima fácil. Assim, se por um lado, estava uma poderosa Europa unida,( em 1922-1924 – na época em que Hitler escrevia “Mein Kampf” – e durante o período em que sua teoria de “espaço vital” estava sendo formada ), pelo outro lado,  estava a URSS vivendo um período economicamente e militarmente lamentável. O Exército Vermelho venceu a Guerra Civil por um preço alto, a indústria foi destruída, o controle estatal sobre o país teria que ser restaurado pelos próximos dez anos, além das forças armadas perderem a guerra para o recém-criado exército do mal restaurado Estado polonês.

Portanto, para onde, então, Hitler estava a olhar? Para o Oriente. Ele escolheu a vítima, que parecia (e naquele momento era) a mais fraca e contra a qual se podia contar com o apoio moral e material do resto do Ocidente, que sonhava com a destruição do comunismo. Ele realmente não tinha opções. Na sociedade alemã, havia um consenso absoluto quanto à necessidade de criar um império colonial para o renascimento e o desenvolvimento da economia. As colônias  confiscadas da Alemanha como resultado da Primeira Guerra Mundial pelos  britânicos e franceses não iriam voltar, pois eles não iriam compartilhá-las com os alemães.

Uma economia normal começa a se desenvolver com a produção agrícola, então alimentos, indústrias leves e (parcialmente) de manufatura crescem em sua base. Na etapa seguinte, começa o crescimento das matérias-primas, e só então o país atinge o auge da industrialização, gerando engenharia pesada e outras indústrias de alta tecnologia.

A Alemanha tinha suas peculiaridades, já que sua indústria não foi destruída, todavia precisava ser reiniciada e, para tanto, precisava de dinheiro. O país pagou indenizações enormes, não havia dinheiro livre no orçamento, e os empréstimos na década de 20 do século passado foram concedidos à Alemanha com extrema relutância. Só era possível ganhar dinheiro rapidamente aumentando drasticamente o volume da produção agrícola e, para isso, era necessário obter áreas adicionais de terras férteis. À sua maneira, a decisão de Hitler de se voltar para o Oriente era lógica. Mas nenhum político sensato iria propor um programa como esse. Em suma, era uma lógica aventureira. Era necessário resolver vários problemas de uma vez no menor tempo possível:

1. Obter o consentimento da Grã-Bretanha e da França para o rearmamento do exército alemão.

2. Obter o consentimento  dos países limitrofes para permitir que as tropas alemãs passassem até a fronteira da URSS e unissem seus exércitos aos alemães durante a invasão. (O que implicaria na transferência da barreira limitrofe oriental para a esfera de influência de Berlim).

3. Obter o financiamento necessário para resolver esses problemas o mais rápido possível (antes que a URSS tivesse tempo de se recuperar militar e economicamente).


Hitler partiu para uma aventura. Ele estava com tanta pressa que a captura da Tchecoslováquia, anteriormente planejada para 1942, foi adiantada para 1938. Além disso, ao  desamarrar as mãos o mais rápido possível, arriscava-se a desentender-se com o Ocidente, que demorava demais para satisfazer seus desejos.

Porém, Hitler  não tinha controle sobre  o tempo. Quando ele estava pronto para atacar, a URSS não era mais uma vítima fácil.

Antes da Primeira Guerra Mundial, já  o Kaiser com sua política foi  quem empurrou a Rússia para o campo dos oponentes da Alemanha. Foi porisso que as elites políticas alemãs começaram a confiar em Hitler por volta de 1930. E os anglo-saxões o incluíram em seus cálculos globais, porém não antes de 1932. Naquele época, o seu perfil  estava bem com o  deles.

Mas aqui surge outra questão: por que Hitler depois de 1939, quando Paris e Londres  declararam guerra contra ele, muito  embora não tenham defendido a Polônia, ( ainda mais depois de 1940 quando ele derrotou a França na velocidade da luz) não tirou proveito do situação, para finalmente botar as mãos no Ocidente, acabando com a Grã-Bretanha? –  ao contrário,  começou a buscar a paz com Londres, enquanto imediatamente após o fim da campanha francesa, em junho de 1940, ordenou a preparação de um plano de ataque à URSS? 

Um pressuposto:  quarenta anos antes, o Kaiser Wilhelm II se comportou da mesma maneira,  negligenciando  o conselho do sábio Bismarck que, sabendo muito bem desde 1904 que teria que lutar contra as forças combinadas da Grã-Bretanha e da França, nada fez para pelo menos neutralizar a Rússia (ou falar em aliança com ela). E uma união seria possível.  Nicolau II seria mais do que um compromisso; as relações da Rússia com a Grã-Bretanha não foram estabelecidas até 1907. Também a França não ajudou a Rússia de forma alguma durante a guerra russo-japonesa, assumindo uma posição formalmente neutra, mas na verdade pró-japonesa. No entanto, o Kaiser nada fez para trazer a Rússia para o seu lado; com sua política, ele literalmente  empurrou a Rússia para o campo dos oponentes da Alemanha. Talvez Bismarck tenha sido o único estadista em toda a história da Alemanha que sugeriu uma política em relação à Rússia, se não amigável ou mais  honesta, pelo menos pragmática. Chamo a atenção para o fato de que várias vezes, apesar dos laços de família, os políticos alemães optaram por um conflito com a Rússia, mesmo que tal conflito envolvesse uma guerra em duas frentes. Portanto, não se pode dizer que os anglo-saxões de alguma forma os enganaram cinicamente. Tanto Guilherme II quanto Hitler tomaram a decisão final quando todas as cartas já estavam abertas.

Lembrança do passado

Mas da mesma forma, no Ocidente, no recém-surgido reino franco (germânico) oriental, as decisões foram tomadas desde o século IX. Parece que havia uma luta dinástica acalorada pela coroa de Imperador do Ocidente e pelo controle de todas as terras do império de Carlos Magno. Mas nesta época os reis germânicos estavam  mais ocupados com campanhas contra o Oriente, em conquistar as terras dos pagãos eslavos. Como os próprios pagãos não interferiam em seus planos, eles poderiam primeiro resolver seus  conflitos com seus primos ocidentais e só após implementar uma política oriental. Um século antes, o próprio Carlos Magno, em vez de lançar todas as forças de seu império para recapturar a Espanha dos mouros (de onde seria extremamente conveniente para ele, atacar a costa mediterrânea da França), ele determinou um marco  na fronteira espanhola e lançou todas as forças de seu império contra  o Oriente,  não contra eslavos, mas pagãos germânicos (saxões), bávaros e borgonheses completamente cristãos. Em uma época posterior, as três direções principais das campanhas de conquista do Ocidente foram:

O Oriente Médio    (as cruzadas)     

Bizâncio, que o ítalo-siciliano Otvili se esforçou para conquistar (De Gotville ou Hauteville – fr. De Hauteville, Italiano D’Altavilla) – uma dinastia de origem normanda, que governou o Reino da Sicília até 1194. – Ed.)

E os estados bálticos (incluindo as terras russas de Veliky Novgorod).

Ao mesmo tempo, os próprios países ocidentais não sofreram ameaças militares vinda dessas direções.
Como você pode ver, a pressão militar irracional sobre o Oriente, levando a catástrofes periódicas nos Estados da Europa Ocidental, não é um know-how puramente alemão. Podemos dizer que sempre existiu de uma forma ou de outra.
Vamos destacar seus principais motivos.

1 – o inimigo ocidental costumava ser melhor organizado e mais poderoso. Campanhas contra tribos orientais dispersas prometiam presas mais fáceis.

2 – desde o primeiro milênio, isto é,  desde o século IX, as guerras europeias começaram a ser percebidas como um “assunto de família”. Os estados europeus sentiam-se como um todo cultural e político único, cujas raízes remontavam ao império de Carlos Magno e ao Império Romano Ocidental.

3 – o fator religioso desempenhou “um bom mote”.  Muito antes do Grande Cisma de 1054, Roma entrou em conflitos periódicos com os patriarcas orientais. Porisso as campanhas contra os pagãos, hereges e cismáticos (os últimos no Ocidente incluíam os ortodoxos) tinham um caráter tão piedoso quanto as guerras contra os infiéis. Mesmo se os papas não lutassem pelo poder secular e espiritual contra os califas, abençoariam as campanhas contra os cristãos orientais com maior prazer do que contra os muçulmanos.

4 – as terras no oeste já estavam  divididas e dominadas. No caso de uma transição de uma região de um estado para outro, o cavaleiro local simplesmente fazia um juramento de vassalo ao novo senhor e permanecia em seu castelo. Assim, os filhos mais novos de famílias nobres, que formavam a base do exército, tinham muito poucas chances de obter propriedade de terras no Ocidente. O Oriente, sim, com suas extensões infinitas, parecia o paraíso,  nesse aspecto. Você derrota os pagãos (ou cismáticos), toma suas terras pelo direito de conquista, torna-se seu mestre e eles são seus servos. É claro que, em tais condições, o cavalheiros europeus ficavam irresistivelmente atraídos para o Oriente. Até a Europa enfrentar a Rússia, sua fronteira oriental era algo como a fronteira ocidental americana. Ela constantemente aumentava, dando às novas pessoas sedentas por melhorar seu status quo, novas terras e novos servos.

Uma pessoa, ao  percorrer o mesmo caminho algumas vezes desenvolverá um hábito. Imagine que hábito os europeus desenvolveram ao longo de mil anos de história! Mesmo depois que os exércitos enviados ao Oriente começassem a desaparecer para sempre na Rússia, o hábito de tentar a sorte periodicamente na direção tradicional de expansão não desapareceu. O eurocentrismo, que se desenvolveu nos últimos quinhentos anos, apenas fortaleceu esse hábito. É muito mais difícil para um europeu levantar a mão contra um europeu do que contra um russo.

Mais para o Leste – “indivíduos abaixo do padrão”.

Há também uma gradação aqui. A maioria dos europeus europeus, onde “todas as pessoas são irmãs”, são europeus ocidentais (franceses, alemães, britânicos, holandeses, escandinavos). Já os Europeus do Sul (italianos, espanhóis, portugueses) – são considerados primos de segundo grau. E os  Europeus orientais (eslavos, húngaros, bálticos), gregos e eslavos balcânicos são primos  no terceiro grau.  Mais para o leste, encontram-se as populações abaixo do padrão. Nos últimos cem anos, os Europeus deixaram de negar uma nossa natureza inferior – a educação os  obriga a reconsiderar, mas interiormente continuam a duvidar de que sejamos pessoas como eles. Todos esses hábitos históricos,  estão tão arraigados na carne e no sangue do Ocidente moderno em geral e dos alemães em particular, que parecem ser a norma. E são habilmente aproveitados pelos anglo-saxões, que por sua vez, desde os tempos dos ingleses, desprezam a população da Europa continental, considerando-se a si mesmos como o mais alto grau de civilização.

Para eles, todo mundo é sub humano. Mesmo os alemães e os franceses, para não mencionar o resto, no sentido anglo-americano, não são pessoas de verdade. Quase do mesmo modo que os anglo-saxões, mesmo não exatamente.
Portanto, os anglo-saxões se sentem completamente livres em relação às suas obrigações para com qualquer pessoa. Eles podem derrubar a República Tcheca, a Polônia, a França e qualquer outro estado ser devorado por um Hitler, desde que isso beneficie a causa anglo-saxônica.


Os alemães têm chance de sair desse círculo vicioso e, finalmente, começar a seguir uma política pragmática de orientação nacional, seguindo o exemplo de Bismarck?

Sim. Para tanto, basta deixar de se sentir “britânico de segunda classe”, abandonar a “irmandade europeia”, relegando em suas mentes “o mito da superioridade europeia”, e buscar um entendimento de que somos próximos e que temos interesses comuns.

Rússia e Alemanha estão amarrados  devido à sua localização geográfica e também devido ao potencial agregado econômico, de recursos, militar e demográfico. Juntos, seríamos capazes de ditar nossa geopolítica a toda a Europa, incluindo a pequena ilha de bronze e seus parentes no exterior. Parece um passo simples, mas é muito difícil de começar, porque é preciso ir contra a tradição histórica milenar. Contudo, o futuro do povo alemão, está rapidamente  se dissolvendo nas ondas de migração, porque, mais uma vez, os anglo-saxões provocaram guerras e imediatamente após abandonaram a UE, deixando os “primos” continentais cuidarem dos problemas que eles criaram.

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