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Uma noite com Giordano Bruno

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Uma noite com Giordano Bruno
Noite italiana.
31 de maio, 2016, 21 horas, Biblioteca Municipal, Como.

Nuccio Ordine vem falar do terremoto.
Não do que aconteceu em Abruzzo (2009) e provocou mortes e tristeza, mas de outro que produziu uma revolução no modo de olhar o cosmos com Giordano Bruno.

Noite brasileira.
Julho, 2016, Centro Brasileiro de Pesquisas Fisicas, Rio.

Flavia Bruno vem falar de Bergson.
Mas a fala vai além e oferece um inesperado conceito. Essa segunda fala me permite entender a primeira, através do conceito que me é dado: auto-adulação.

Construo então Giordano Bruno.

Giordano é grande, não somente porque não se submeteu aos doutos senhores da Igreja, nem porque não se curvou ante conceitos cósmicos que não lhe pareciam corretos ou melhores, adaptados a seu pensamento, com a lógica que seguia.
Não.

Ele foi grande porque perseguiu seus ideais e conseguiu esse feito heroico de desvendar como não se submeter à auto-adulação.

E como ele faz isso?

Retirando o centro do mundo de Deus?

Não: democratizando o centro.

Dando a cada um, a cada coisa, a possibilidade real de estar e ser o centro do universo.

Quatrocentos anos depois, de modo distinto, impessoal, técnico (e dessa forma, identificado com o real, o verdadeiro), despojado de qualquer sentimento humano, a cosmologia moderna descobre esse caminho.

Mas disso, dessa cosmologia de hoje, falaremos em outro lugar.

Ao visitar Giordano Bruno, somos entusiasticamente, apaixonadamente como ele, levados a produzir a refundação da ciência, o ponto de apoio tomado na Cosmologia.

E, como ele, estimular uma crítica tão virulenta ao establishment que não nos deixe respirar até que possamos completar essa missão.

Apontando como maléfica uma ciência que sustenta esse modo de vida, que chamam capitalista, que se esgueira e se adapta à lógica como camaleão, na função nada nobre de submeter-se servilmente ao poder.

Em nome de uma ideologia que se quer arrogante e auto elogiosa, identificando sua palavra como a verdadeira, afastando os outros saberes, expulsando o diálogo com outros saberes.

Bruno vem mostrar um outro caminho, diz Nuccio.

É com esse espirito, com essa visão libertadora que Giordano Bruno vem até mim. Não sou eu que o procura.

Nessa noite italiana, fria, Giordano me aparece inteiro. Como um símbolo. Não importa o nome, não importa o sofrimento que passou. Sua loucura ao expor o que queria ser, ao expor o que era.

Sem auto-adulação, procurando o seu caminho, sem o desejo pegajoso de se submeter, de ser escravo.

E então aparece em um primeiro momento uma Cosmologia nova. Um modo novo de olhar o cosmos e de se integrar nele, como se nunca tivesse dele se afastado.

E a partir daí, a possibilidade de vida diferente, solidária, unitária, identificadora, romântica naquilo que tem de ingenuidade ao aceitar que é possível enfrentar com alegria um diálogo honesto e completo com o outro.

A partir de um intermediário acessível a todos: o cosmos.

Será esse o caminho ou nada mais é do que um holzwege, como diz Heidegger, um caminho que adentra a floresta e não leva a lugar algum que nos encantaria?

Para alcançar o outro, esse que está aparentemente a meu lado, devo me projetar naquele infinito Cosmos?

Onde Giordano quer nos levar através desse atalho cósmico?

Estaríamos assim submergidos em um enorme desperdício de esforço e tempo?

Não.

É o oposto. É o caminho que leva diretamente ao outro, passando por esse longo desvio, essa bifurcação contínua, o universo.

Assim, eu e ele podemos nos ver como um e não como estruturas programadas para serem jogadas em uma arena a disputar o controle do mundo, o controle do outro.

Esse o ensinamento de Bruno que Nuccio despertou em mim. O infinito, o universo e os mundos. A infinidade de mundos, a homogeneidade sem um centro.

A terra não é o centro, diz Copernico e desloca o centro para o Sol. Trata-se de uma mudança geográfica. Sem importância maior, a não ser ferir o orgulho da espécie humana.

Bruno vai além: o Sol também não é o centro.

E continua mais ainda: nem há um centro. A homogeneidade se estabelece como uma democracia cósmica.

Esse ensinamento, essa profunda mudança de orientação vai além do mundo físico. Além da ciência física, além da cosmologia, trata-se em verdade de uma mudança na alma.

A cosmologia moderna vem recolocar a ciência nos seus ideais iniciais e de um só golpe, recupera a visão premonitória de Bruno e nos dá a homogeneidade do espaço.

E, dessa forma, se faz o aggiornamento do pensamento utópico de Bruno, mesmo que para isso deva retirar o homem do papel principal desse enredo cósmico.

Giordano ao seu estilo apaixonado de homem do sul italiano nos dá uma lição maior, clamando a sua extrema liberdade e nos convoca para que não sejamos escravos de uma realidade que produzimos.

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